Textos & Contos

Caída  por Christian Sergi

Fiz-te uma prece e me lancei pra fora do era o seu mundo, caindo como uma estrela pra dentro de outro.

De muito que chorei meus olhos se tornaram como em brasas vivas ardendo pelo ódio que tive de ti, que com um sutil e mortal gesto, me lançou pra fora do seu amor, e me condenou a viver para sempre sozinha com minha culpa por ter te amado de tal modo, que desejei ser como sua sombra.

Lutei. Com todas minhas forças lutei contra a minha sentença, não venci e não fui vencida. Enterrei-me dentro de minha consciência, tentando esquecer de mim e busquei me esconder de seus olhos nas profundezas do mundo. Estavas lá também, senti sua respiração e sua presença em cada partícula de terra e até mesmo na absoluta escuridão.

Eu não posso morrer, e os séculos pesam sobre meus ombros, minha face não envelheceu, mas as linhas de minhas mãos doem, meus dedos sangram porém não sinto nada, nem a mim mesma. A imortalidade me veio, como uma maldição e diante da grandeza do teu universo, escolho manter meus olhos sem brilho, fitando os meus pés imundos e a poeira da minha insignificância. As flores não crescem em volta de mim, e por onde eu passo toda a vida se esconde me virando as costas e até as montanhas murmuram entre si apontando-me o dedo e ordenando pra que me retire.

Basta de minha desgraça. Num último gesto eu me deito no chão frio e me cubro com o vento que ainda sopra sobre meus cabelos sujos que cobrem meu rosto e olho mais uma vez pro teu céu e rogo pra que me ouça.

Essa noite quando eu fechar os meus olhos, me faça dormir. Ao menos uma vez em todos esses séculos de medo e dor, abençoe-me com o sono da não existência. Ainda que rejeite me colocar em teu colo, ao menos com seus dedos de misericórdia, feche meus olhos, coloque meu corpo cansado em qualquer cova de qualquer mundo assistido pelo abandono eterno e me dê a morte como último ato de amor.

Depois, se esqueça de mim, silencie minha vida e dê-me a dádiva que os homens receberam: tornarem à terra de onde vieram e terem suas carnes comidas pelos vermes dessa.

Eu nunca existi.

Pra nunca morrer  de Christian Segi

E então quando eu me for, não tenha em sua mente, que surgiu em mim em algum momento, dúvidas ou medos ou desespero, por não saber ao certo para onde eu estava indo.

Para onde exatamente eu seria direcionado em que lugar seria minha última morada?

A mim, nunca importou de fato e por nem uma noite sequer, perdi o sono tentando sanar esta questão, embora a idéia de uma possível eternidade sempre me apavorou.  A eternidade consciente.

A terrível idéia de que minha consciência e o perceber de mim mesmo, estariam mesmo depois de sessado o sopro de vida em mim, vivos e conscientes em alguma eternidade, seria tortuoso.

Vejo a vida como um dom maravilhoso, apesar das dores da carne e da alma e agonias constantes sondando e vindo com a luz do sol entrando pela janela todas as manhãs; ainda por amor à vida, me esforço em continuar sentindo o calor dos dias, o vento nos cabelos o cantar dos pássaros e tudo que me cerca e me diz que ainda estou vivo.

Mesmo assim nunca cultivei a esperança ou desejo do “ser eterno”, como algumas pessoas almejam. De modo que quando eu me for e tu olhares para meu túmulo, saiba que eu não estarei ali. E se olhares para o céu dos cristãos pense que lá também não estarei. E se procurares no inferno não me encontrarás pois nunca cri de fato na existência real desses mundos de conforto ou danação eternas.

Mas me acharás mesmo depois de minha morte, em minha obra por mais pequena e singela que ela se mostre, eu estarei ali de alguma forma.

Onde estiver uma escrita, uma pintura um rabisco meu, ali sim estará minha imortalidade.

- Muito pior de passar por essa vida, sem ter tido o privilegio de ter um filho, é ter tido e um dia perde-lo para os braços da morte.

 

- Se você amou demais um lugar, não volte a visitá-lo esperando encontrar as mesmas emoções. O tempo que você amou, não está mais lá. Os lugares não mudam de lugar, mas o tempo sempre muda os lugares.

-Só fazemos promessas ruins a Deus. Em busca de algum favor, prometemos em troca da graça alcançada, o que é ruim e penoso para os nossos lombos; nunca prometemos que iremos beber um bom vinho ou cheirar o perfume de uma flor em um dia de varão. Como se Deus se alimentasse de nosso flagelo. Servir a Deus de verdade é amar e cuidar dos pobres, sem lhes colocar como condição a conversão à fé, em troca de nossos favores. Sem trocas ou qualquer tipo de barganha. Isso é terrorismo.

- Olhos são órgãos cruéis.

- Eu e somente eu, tenho o direito sobre minha vida. O próprio Deus quem me deu a vida, também me deu a liberdade de escolha sobra a mesma. Eu descido se sou triste ou feliz, se vivo ou se morro.

- Tal como a minha sombra, a dor está diante de mim todos os dias. Principalmente na escuridão de meus pensamentos, na solidão de meus dias sem cor e na ausência de uma voz "humana" em torno de mim.

- Jamais me peça para eu escolher entre você e minha arte, você perderá todas às vezes. Você torna meus dias mais cheios de amor e ternura, mas minha arte é o que mantém coeso o sentido de minha existência.

-Um dia, recebi a suave e doce visita da loucura. Dei-lhe a mão e fomos juntos por um caminho de flores que exalavam o odor do “descompromisso” com o relógio e as responsabilidades que seus ponteiros apontam sem parar. Sentei-me e apenas pensei. Ao fim do dia quando ela foi embora, descobri que aquele fora um dos meus dias mais produtivos.

- Amada minha, não te enganes. Não me ame pelo o que eu faço, mas pelo o que eu sou. Pois, o que eu faço, dada a fragilidade de minha condição humana, pode ocorrer de minhas forças se esgotarem e ser tirado a vida que corre por entre meus dedos; já o que eu sou, nem mesmo eu tenho poder para não ser permanecendo imutável até o dia em que a morte estiver dobrando a esquina para me tocar com seus dedos gélidos; ficando para ti, na memória as obras de minhas mãos que te alegraram, e na alma aquele que te amou com todo o ser, que conseguiu  ser.

- O mundo feminino é muito mais ruidoso.

- Não foram as mulheres que ficaram mais poderosas, foram os homens que escolheram a resignação.

- A vocação para fazer tem de ser precedida pela vocação de ser.

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